Há coisas que deveriam ser ensinadas na escola. São muitas, claro, que deveriam substituir outros assuntos estudados por uma razão inimaginável, como os Princípios da Geografia e os ribossomos. Mas esse em mente específico é bem importante: como ler. Certamente haveria disciplinas básicas anteriores, como o alfabeto, interpretação, fábulas e contos de fadas, e aqueles livros do ginásio que sempre falam de sexo, gravidez e AIDS.
Uma vez transportas essas barreiras, viria a arte (arte?) de uma leitura mais... digamos "avançada". Não desmerecendo as outras; cada fase tem sua importância no momento, por mais que se diga depois que foi fácil (apesar de nunca ter sido). Mas enfim, o que proponho para as aulas é... não sei. Na verdade, seria o aluno mais assíduo! Eis que, há pouco tempo, me encontrava numa fase onde achava que os únicos livros que realmente mereciam serem lidos eram os considerados grandes nomes da Literatura. Nunca o fiz externamente, mas ria por dentro ao ver amigos lendo outros livros que não fosse um "Dom Casmurro" ou um "A Hora da Estrela". Tolo, sei. Quebrei a cara ao achar que leria facilmente livros como "Primeiras Estórias" e "Cartas a um jovem poeta".
Mas tudo bem, uma vez percebido que não se pode ler um conto de Guimarães Rosa em 5 minutos (mesmo tendo ele umas 6 páginas), decidi avançar por uma nova tática: leitura balanceada. Era simples: tudo o que eu precisaria fazer era balancear um livro "pesado" com um livro mais "leve". Decidi ter por leveza um... Verissimo, que tal? O pai, não o filho.
Taí mais uma mancada. Nada contra o autor, pelo contrário! Outro cronista como ele por aí não se vê (eu que não vejo, ok, reconheço minha limitação de autores). O problema foi considerá-lo leve. Primeiro que o livro comprado foi "O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso", de alto teor político-econômico-social, numa perfeita dose de ironia cruel. Até aí tudo bem, mas o problema é que o que eu buscava era um livro de cabeceira para os minutos pré-sono.
Grande erro! Ler Verissimo me faz, no apagar das luzes, o exato oposto de apagar os infinitos pontos luminosos da minha mente: parece mais uma explosão de fogos de artíficio chineses, daqueles que até desenho de dragão fazem no céu. Isso sem falar na rave de ideias criadas, que por mais explosivas que sejam no momento, contrariam o próprio princípio de rave: apagam-se com algumas horas de criação. Daí crio meu dilema: passar o papel o que o autor me passou para a cabeça ou garantir a noite de sono e, consequentemente, o dia posterior acordado?
Quantas complicações evitadas simplesmente pela existência de aulas não puramente conteudistas nas escolas!
Só que aí vem a dúvida: seriam esses obstáculos necessários para a construção de um melhor escritor?
Talvez não Freud, mas quem sabe Verissimo explica.
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Ps: sim, foi o próprio gorducho gaúcho que desencadeou o texto acima.
INDIZÍVEL
Há 2 meses
