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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O gatilho do amor

Qual a medida do amor? Acho que há um consenso de que não existe tal mesura. Mas gostaria de aqui introduzir um novo conceito: o gatilho do amor. Não me demorarei muito em defini-lo, nem dele farei um tratado. Quem sabe depois. Fiquemos por enquanto na essência. O gatilho do amor é exatamente aquele momento que firma a conexão sua e do outro. Se não se mede o amor, podemos dizer que o gatilho é aquela dose que enche a gente. Ou que nos transborda, ainda não sei dizer bem. O que importa é que o gatilho nada mais é do que aquele momento em que o mundo finalmente inexiste a não ser ele e você.


Dá-se inesperadamente, é claro. Para mim, bastou (e veja aqui que o que basta é apenas para o momento; tão incomensurável é o amor que jamais poderia expor aqui tudo o que compôs a construção do sentimento. Foquemos no gatilho, e no gatilho apenas) a minha mão entrelaçada à dele, meu braço ao seu redor, e minha cabeça deitada em seu ombro. Nenhuma ação que não já tivéssemos feito anteriormente. Me pergunto: o que teria feito daquele instante tão único, então? Vai ver foi a medida, no acúmulo desses tantos outros instantes. Portanto, o gatilho é essencialmente o momento, e não propriamente a ação. Daí veio aquele calor agradável, indo então por cada centímetro. E à minha boca vieram as três palavras, tão perdidas e banalizadas. À minha boca vieram, e por lá ficaram. Talvez tenha pesado o uso indevido delas. Ou quem sabe só precaução. Mas aqui dentro, eu sei o que me preencheu. E se já estou assim cheio, em breve vai transbordar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um novo par de olhos

Por um tempo de agora me pus a usar óculos. Admito que no fundo sempre tive curiosidade; não sabia o que me esperava. Primeiramente porque todo e qualquer tipo de partícula parece ser atraída por aquelas duas lentes de 15cm². Mas que posso fazer, é só assim que os minúsculos pontos de luz se ordenam.

O problema é que algo me incomoda ao pôr esse par de gafas. Não sei bem o quê. Nesse mundo de homens tão dependente da visão, pô-los me faz ver tudo diferente. Nítido, mas cinza. E nesse mundo de homens tão dependente da visão, toda a construção que fiz do ao meu redor com o passar do tempo vem-me agora distinta, confusa ao meu antigo ver. Claro que nem sempre fui míope, mas um ou dois dos mais importantes de meus escassos anos foram vividos com a luz se indo a todos os lados.

Eis que, portanto, alterno-me entre os dois mundos. Um onde os conceitos são imponentes, definidos, palpáveis. E o outro, que é minha pátria. Daqui me vim, e aqui me formei e a tudo. Aqui, onde a luz decide ir a outros lugares que não meus olhos, e os pontos trocam de lugar uns com os outros na ordem certa das coisas. Eu sou aqui, e aqui tudo se é difuso. Mas se você chega bem perto, as coisas voltam ao lugar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volta em banco

Meu encontro com o grafite vem se rarefazendo ultimamente. Me restrinjo agora a corridas-de-escrita dentro do molde dissertativo-argumentativo (molde esse que é mais uma receita de bolo - competitiva, visto que se dá melhor quem a prepara em menos tempo - do que livre exercício de opinião) e garatujas envolvendo algarismos indo-arábicos em suas relações operacionais.

O que me traz aqui, então? O ócio. Impedido de exercer as atividades já descritas, que agora se encontram como minhas prioritárias, e me sentindo demasiado impedido de usufruir de um de meus desejos maiores (ler, seria ele), volto a exercer minha função (por mim mesmo incubida a mim) de por mente (parte dela, claro; infinito universo!) em pó-de-carbono.

Jazo há cerca de duas horas em local mesmo e posição. Acredito que tal permanência deve-se prioritariamente a dois fatos: o hábito já recorrente de pagamento de salários no início do mês e a ineficiência dos bancos públicos para lidar com demanda tão alta. Poderia citar como causa também o atendimento prioritário aos ingressos à melhoridade, mas temo arrepender-me daqui a quarenta anos.

Lembro-me de como era minha vida antes daqui. Aproveitava-a com entes queridos, além, é claro, de arcar com os compromissos estudantis. Mas não mais agora. Poderia dizer que minha vida mudou após essas duas horas e onze minutos de espera. A análise dessas cem pessoas que por aqui circularam certamente trouxeram uma experiência nova para mim. Tão envoltas em seus cotidianos, despender tamanha parte de precioso tepo vital já faz parte deles. Unidades de tempo vão sendo gastas não só com a espera no banco, mas também com o pagamento de contas, o trânsito nas rotas trabalho-casa e casa-trabalho, e com a fila do pão.

E é nessa vida que eu me adentro. Sem perceber, caminho não só para a especificação dos estudos, mas também rumo a todas as rotinas típicas de quem já soma uma quantidade considerável de primaveras. O que fica, além do suspiro desiludido e meio que conformado, é o questionamento:

Serei como eles, que de tão absortos nos mundos próprios isolam-se e despercebem o redor?

Não sei. E não posso aprofundar mais. Minha senha foi chamada.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Why doesn't it always rain on me?

Eu falei com a chuva. Veio a mim sem eu sequer chamá-la, mas como foi bem-vinda! Quem sabe ela tornasse minhas lágrimas camufladas. Como a quis! Pedi-a com mais força. Pingos grossos! Daqueles que se fazem perfeitamente audíveis ao tocar o chão.

Eu falei com a chuva, e ela não me atendeu. Fez-se garoa. Mas era de força que eu precisava. Um toró traria à tona todo aquele sofrimento guardado pelas convenções sociais, que só de cutucar já dói o corpo todo.

Mas ela queria me ver sofrer. Não a culpo; nada que eu não merecesse. E a ela isso disse. Que fosse feita sua vontade. Falei-lhe que entendia seu desejo: que minha dor extravazasse aos poucos, evaporando sem pressa. Nada mais justo. Contei-lhe que a dor da qual eu havia sido agente dela agora sofria. E causada por mim! Nada que ela não soubesse.

Eu falei com a chuva, e ela me ouviu. Vai ver que por pena tratou de ganhar vigor. Que maravilhoso! Senti meu cabelo umedecer, mas não tão rápido quanto desejava. Comentei com ela que bem que podia ser mais. E ela diminuiu. Fui eu ganancioso? Abusivo? Tudo bem, pedi que mantivesse o ritmo de antes. Ela manteve: cessou água. É preciso ser tão exato assim com a natureza?

Eu falei com a chuva, e ela me ouviu. Ouviu, mas não atendeu. Circulei um pouco pela rua, ainda esperançoso. Até que percebi seu jogo. Entendi que, assim que entrasse em casa, ela desabaria. Acreditava que era apenas para me dar o gostinho, e assim aumentar o que eu tava cá dentro. E assim foi.

Até demorou um pouco. Achei estar errado. Mas ela veio: desabou com o que podia. Mas só por provocação: logo se recolheu ao seu nada, e eu ao meu.
Meu nada nunca havia pesado tanto.

sábado, 25 de abril de 2009

Cê viu?

se alguém me vir por aí,
favor me devolver
que o que sou me falta

se alguém me vir por aí,
me avisa que eu tô aqui
pra ver se me junto comigo

se alguém me vir por aí
não finge que não conhece
pois foi por fingir que eu quebrei

se alguém me vir por aí
me pegue e não solte
que eu não vou aguentar
ser meio sozinho não

se alguém me viu por aí
sabe que o eu aqui não sou
fui, talvez
mas não mais serei.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

vida atual

Como comentário do texto de Fernanda, minha prima querida, acabei por pôr (esse acento caiu?) em algumas palavras a minha vida no Atual, meu colégio onde estudo há 9 anos. Segue:

Quanto ao colégio, eu entendo também. Eu vivi o Atual. Desde a 3ª série! Por mais que eu tivesse passado a não simpatizar com a administração do colégio, eu sabia que as pessoas de lá eram muito importantes para mim. E eu ainda sei disso! Quero ser o orador da turma, e penso em como vou falar sobre o colégio, todo esse tempo...

Mas a verdade é que, para mim, passou. Não o menosprezo! Reconheço como o colégio foi importante para mim. O que acontece é que, por melhor que seja uma fase, temos que aprender a deixá-la, não é?
E é isso. Eu deixei o Atual. Não largado, indiferente a ele; guardo-o bem. Mas é uma fase, e ela tem que ir. Não vou mentir que não morro de empolgação pela universidade, só que compreendo que a minha vida no colégio não foi só uma pré-vida.

Comigo é assim: nem acabou e eu já quero sair. Ainda tenho o mundo pela frente.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ah, a linguagem!

2009 para mim começou mais tarde. E o pior: nem tinha notado isso. Por três meses fiquei vivendo num mesmo clima do ano passado, com os mesmos comportamento e postura de 2008.
Na verdade, dá até para considerar esses meados de março em diante como um 2008 e meio, meio que uma fase de transmissão.

Mas se assim for, o que aconteceu de tão importante em abril para o ano novo ser finalmente declarado? Pois é, foi algo grande. Para mim, claro, confesso ser esse um texto apenas para que fique de registro essa fase atual.

Sabe a sensação de você escolher um curso na universidade por não achar que nada mais lhe serve? É como o último garoto escolhido no jogo de queimado, barra-bandeira, enfim: você não o escolhe porque quer, mas sim porque é a última opção. A diferença é que os demais garotos, no caso cursos, não foram escolhidos, mas sim eliminados; diferentes demais. E é aí que tá: uma coisa é você escolher um curso por ele lhe atrair, apresentar um destaque, outra coisa é você decidir por aquele que menos lhe causa aversão.

Pois é, assim fiquei. Desde 2007. E foram 2,4 longos e relativamente felizes anos com Ciências da Computação. Mas o último ano do Ensino Médio é complicado: você finalmente percebe que o vestibular vai acontecer, e não tem jeito. E aí? Seja o que você decidir, deverá ser algo que, em tese, perdurará por mais no mínimo 4 anos. E então foi que eu pensei: será que aprender cálculo, linguagem de programação e sistemas de informática é o que eu quero pelos próximos 4 anos?

A pergunta perdurou. O curso havia sido uma decisão forte, tivera dois anos para formar alicerces! A pergunta precisou criar igual força. Levou menos tempo, de fato; e foi chegando aos poucos.

A verdade é que a minha maior dificuldade foi exatamente quebrar a certeza de Ciências da computação. Não havia como! Em tempos como vestibular, destruir uma certeza dessas desestrutura você para as demais atividades do ano! E portanto, o processo foi penoso.

Houve brigas comigo mesmo. Reconciliações comigo mesmo e com demais outros. Por mais estranho que seja, o simples fato de dizer em voz alta "Eu vou fazer Letras" mudou totalmente tudo. A simples profissão dessa frase foi capaz de fazer como que a escolha anterior pela Ciência nunca houvesse ocorrido.

Mudei. E nunca me senti tão bem por isso! Uma coisa é escolher um curso por falta de opções, mas outra totalmente diferente é ter realmente uma prefêrencia! E aí surge a pergunta: por que não escolheu antes?!

Medo, claro. Dois dos meus irmãos (os únicos, vale dizer) seguiram pelo caminho exato. Confiança! Se deu certo para eles, daria para mim! Tolice, sim! Mas felizmente percebida antes que fosse preciso esperar o vestibular 2011 para mudá-la.

2009 para mim começou mais tarde.
E para mim ele acabava por aqui mesmo, para que eu finalmente pudesse entrar para a universidade. Mas, first things first!

Bem-vindo, 2009! Que continue a ser um ano de agradáveis mudanças!

terça-feira, 31 de março de 2009

Dalton

-Zinho?
-Diga, minha filha.

Dolant falava com ele assim. Se é que podia chamar de ele. Se é que podia chamar de alguém! Quem é? Ah, aquele que dizem todo poderoso... Deus, Jeová, Alá, que seja.

-Cê num acha que a vida poderia ser mais do que já é?
-Mais como?
-Ah... além.
-Ora, foi para isso que eu dei às pessoas a capacidade de criar!

Dolant pensou bem muito e teve uma ideia: criou um deus. Não foi fácil, teve que ter muita concentração e desejo. Dizem até que passou anos pensando apenas nisso para consegui-lo! Mas criou. E esse deus foi forte: criou uma vida mais do que já era.

-Zinhoinho?
Era assim que
Dolant chamava o deus dela.
-Sim?
-Meu deus me deu o poder de criar meu deus. E se ele também tivesse sido criado por alguém com o poder de criar um deus?

Zinhoinho não respondeu. Não que fosse incapaz; só não queria dar a
Dolant a resposta.

Mas isso não importava, e
Dolant sabia que não.
O que importava é que ela tinha ido além, e isso fez dela seu próprio deus.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Criando a consciência da incapacidade de leitura.

Há coisas que deveriam ser ensinadas na escola. São muitas, claro, que deveriam substituir outros assuntos estudados por uma razão inimaginável, como os Princípios da Geografia e os ribossomos. Mas esse em mente específico é bem importante: como ler. Certamente haveria disciplinas básicas anteriores, como o alfabeto, interpretação, fábulas e contos de fadas, e aqueles livros do ginásio que sempre falam de sexo, gravidez e AIDS.

Uma vez transportas essas barreiras, viria a arte (arte?) de uma leitura mais... digamos "avançada". Não desmerecendo as outras; cada fase tem sua importância no momento, por mais que se diga depois que foi fácil (apesar de nunca ter sido). Mas enfim, o que proponho para as aulas é... não sei. Na verdade, seria o aluno mais assíduo! Eis que, há pouco tempo, me encontrava numa fase onde achava que os únicos livros que realmente mereciam serem lidos eram os considerados grandes nomes da Literatura. Nunca o fiz externamente, mas ria por dentro ao ver amigos lendo outros livros que não fosse um "Dom Casmurro" ou um "A Hora da Estrela". Tolo, sei. Quebrei a cara ao achar que leria facilmente livros como "Primeiras Estórias" e "Cartas a um jovem poeta".

Mas tudo bem, uma vez percebido que não se pode ler um conto de Guimarães Rosa em 5 minutos (mesmo tendo ele umas 6 páginas), decidi avançar por uma nova tática: leitura balanceada. Era simples: tudo o que eu precisaria fazer era balancear um livro "pesado" com um livro mais "leve". Decidi ter por leveza um... Verissimo, que tal? O pai, não o filho.

Taí mais uma mancada. Nada contra o autor, pelo contrário! Outro cronista como ele por aí não se vê (eu que não vejo, ok, reconheço minha limitação de autores). O problema foi considerá-lo leve. Primeiro que o livro comprado foi "O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso", de alto teor político-econômico-social, numa perfeita dose de ironia cruel. Até aí tudo bem, mas o problema é que o que eu buscava era um livro de cabeceira para os minutos pré-sono.

Grande erro! Ler Verissimo me faz, no apagar das luzes, o exato oposto de apagar os infinitos pontos luminosos da minha mente: parece mais uma explosão de fogos de artíficio chineses, daqueles que até desenho de dragão fazem no céu. Isso sem falar na rave de ideias criadas, que por mais explosivas que sejam no momento, contrariam o próprio princípio de rave: apagam-se com algumas horas de criação. Daí crio meu dilema: passar o papel o que o autor me passou para a cabeça ou garantir a noite de sono e, consequentemente, o dia posterior acordado?

Quantas complicações evitadas simplesmente pela existência de aulas não puramente conteudistas nas escolas!

Só que aí vem a dúvida: seriam esses obstáculos necessários para a construção de um melhor escritor?

Talvez não Freud, mas quem sabe Verissimo explica.

-

Ps: sim, foi o próprio gorducho gaúcho que desencadeou o texto acima.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

a verdade é que me preocupa o meu ser. vejo a banalidade e desgosto, a ponto de negá-la em minha vida; enfeito-a de modo a exibi-la como única e relevante. sempre na preocupação de achar a maneira certa de especializar.

e me pergunto, então, se assim é com os outros. se quando eles estão aqui, nesse momento meu, que para eles seria o momento deles, expressam-se de maneira tão bela simplesmente porque deixará bela, pela beleza em si, como se a realidade não lhes fossem apreciável.

que assim não seja. que a beleza não seja uma máscara, mas um traço. e que aqueles, assim como eu, sejam apenas os dispostos a vê-la real, não criada.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Música, windows media player!

O início vem difícil, mas chega. Paciência!

Música. Na verdade, essa é a palavra central do texto; não deveria entrar aqui, no início. Mas tudo bem, comecemos assim.

O fato é que tenho pensado sobre música por agora. Não no geral, nem em relação a eu querer tocar. Mais fácil dizer o que é do que manter-me eliminando alternativas erradas. Me vêm à cabeça músicas que, sabe-se lá motivos, destacam-se para mim quando ouvidas. Tentarei explicá-los.

A primeira aqui não poderia ser outra senão The Scientist - Coldplay. Libertação. Ouvi-a por acaso numa novela há muito tempo, sequer lembro-me qual, talvez O Beijo Do Vampiro. Saí perguntando desesperadamente quem seria o grupo que a cantava, até que o encontrei, junto ao nome. Surgiu aí a minha primeira paixão por uma banda: costumava digitar coldplay no kazaa ou no shareaza e baixava qualquer arquivo de áudio que aparecia. O jeito era esse, uma vez que algo tão útil como a comunidade do orkut Discografias não existia. Mas era bom assim.
A verdade é que The Scientist veio me acompanhando até hoje, já fazendo bem uns cinco ou seis anos. Letra e melodia combinam-se na tentativa de reverter um presente prejudicado, voltando ao passado. É uma música muito forte, ouvi-la sempre me deixa extremamente emocional. Me permite entrar em contato com esse outro lado, sempre que preciso pôr pra fora algum sentimento pesado em excesso. Acho que dá para considerá-la assim: abre a ferida, mas no intuito de liberar o veneno.

Eis que me deparo com Spooky Couch - Albert Hammond Jr. Tudo o que consigo dizer sobre ela é que há um tom de misterioso em tudo. Spooky, como se o sofá de alguma maneira assustasse o observador. Mas a melodia me faz sentir muitas coisas, mas não assustado. Na verdade, admirado. E, no final, esperançoso. A esperança transmitida é tão forte que o meu desejo acaba sendo de que a música não acabe, no medo de que a sensação acabe com ela, o quê, infelizmente, ocorre. Integralmente instrumental, a música segue-se numa progressão feita em ritmo certo, como se, aos poucos, fossem desvendados os tão misteriosos segredos do "sofá".

E aí chegou I've Just Seen A Face. Não a versão dos Beatles, mas a produzida no musical Across The Universe, cantada por Jim Sturgess. Essa traduz nada mais nada menos do que o amor. A verdade é que ouvi-la me trouxe uma sensação nunca antes sentida: arrepios nos cabelos da nuca, descendo então para o resto do corpo. Magnífica sensação! Já li sobre ela em vários livros, mas senti-la é algo único. É música de casal, música para ser cantada sempre que possível para a parceira, mostrando o que ela é capaz de fazer comigo.

Mas mais ou menos na linha há também Outros Sonhos, de Chico Buarque. Utopia: é a palavra que me translata o sentimento de ouvir. E como não poderia ser ela? Tudo descrito em letra mostram coisas que a humanidade vê como objetivo, particularizado no cenário carioca, mas ainda assim universal. Para mim é visto como o poema perfeito, daqueles onde o autor escreve e o vê insuperável, se é que isso é possível, pois a sensação de insuperabilidade impediria de continuar escrevendo.

E, por fim, apesar de eu achar que ainda há outras músicas marcantíssimas, mas ser incapaz de lembrar, fica Battleships - Travis. Apaixonante. Não entendo, mas é essa palavra que surge ao pensar nela, no meu fluxo livre de imaginação. Não é em alguém específico que penso quando a ouço. Nem no fato de existir alguém, qualquer que seja. Diria que é mais... em mim mesmo. Fico embalado em sensações próprias, numa situação de felicidade extrema e transbordante ainda que plena, e mesmo que tudo na letra indique que tal sentimento utópico seja causado por uma pessoa amada. Como se por dentro tudo estivesse a explodir, mas só interiormente. E como se toda essa reação seja desencadeada de fato por um outro alguém, mas que o objeto de meu interesse seja só a reação em si.

E só para não deixar como se não houvesse interesse nenhum pela banda, tenho que falar de Los Hermanos. A verdade é que não consigo encontrar uma música favorita dentre a obra. Não vou dizer que todas são minhas favoritas: algumas me desagradam. Mas a maioria, sim. Diria que a obra deles fica para a vida toda. Não há uma música única. Não que todas sejam iguais; mas, no caso das acimas descritas, uma música aparece mais forte dentre outras. Com as deles, não: todas são fortes demais e aparecem em mesma proporção. Tudo bem que há muitas que se destacam. Mas, não entendo o porquê, escolher uma melhor entre elas é impossível. Não me sinto como se tivesse traindo as demais, e não estou enganando a mim mesmo, realmente não consigo eleger tal posto. Mas que fique registrado o meu interesse maior-mor pelo conjunto.

E outras virão. Que fique aqui a certeza.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A fuga.

Me peguei lembrando de quando Luma tinha fugido. Faz-se tempo; ela, uma yorkshire pretinha, nem com dois anos, botou na cabeça que seguiria o meu irmão. E seguiu. mas foi assim, sorrateira. Acabou por ninguém conseguir percebê-la: nem ele, nem nós em casa. Quando nos demos conta, foi um estardalhaço. Na verdade não, foi aos poucos. A gradação da suspeita à certeza. Primeiro se procura em lugares prováveis, e depois de não se achar nem nos imporváveis vem a constatação:

É, fugiu. Segue-se então a ampliação da busca: da casa ao bairro. Fomos de carro até a avenida. Era, para nós, o máximo a que ela chegaria; ficava a 5 quarteirões de casa. Depois de buscas a olho, nada feito. Voltamos para casa e preparamos cartazes com fotos dela. Dizíamos que haveria recompensa: mainha estava disposta a pagar 300 reais por ela. Colamos cartazes, saímos perguntando em prédios vizinhos, demos até alguns para o jornaleiro colocar nos jornais...

...nada feito. Voltei pra casa arrasado. Mainha disse para Babi, a outra york, mais velha: "é, você agora vai poder ser rainha sozinha da casa". "Rainha ela sempre foi, mas antes havia uma princesinha", disse eu em minha cabeça. Chorei, escondido. No MSN, minha amiga me xingava; dizia que eu era idiota, foi burrice minha. Vai ver eu na minha fraqueza não pude retrucar, ou era fraco na época mesmo. Os outros que estavam na conversa o fizeram por mim.

Raiou então o outro dia. Acordei cedo, umas oito horas, mesmo tendo ido dormir às cinco. Disse à minha mãe que sairia para colar mais uns cartazes, e fui. Se não me engano, levei Babi junto. Fomos mais adiante, umas três quadras. Colei uns nos postes e então voltei para casa.

Não demorou muito. A ligação deve ter chegado umas duas horas depois. Gabriel, um morador das redondezas, havia achado-a desde ontem, e acolhido. Mainha gritava como nunca. "Gabriel, você é um anjo!", e foi por isso que até hoje me lembro o nome do homem. Ele explicou a história: disse que ela estava atrás de um pneu de um carro, no prédio onde ele morava. A empregada, que estava chegando para trabalhar, viu exatamente o último cartaz que eu colei, num poste próximo ao edifício.

Ao chegarmos lá, foi uma festa. Luma estava toda eufórica; eu e mainha, então... O casal falou que não queria recompensa, mas mainha insistiu em dar um conjunto de banho a eles. Falaram que havia acontecido o mesmo com a mãe de um dos dois, não lembro se de Gabriel ou da mulher, e disse que o havia achado cobrara dinheiro para devolver o cão.

Não sei se já deixei claro aqui antes, mas não acredito em coincidências. A história me lembrou de o quão sortudos fomos. O cartaz poderia ser posto em qualquer lugar. E se tivesse sido colado depois, quem sabe se o viriam? A hora e o local foram exatos.

Ou será que não foi sorte? Vai ver Luma era para ficar com a gente mesmo.
E ficou. Perdura até hoje.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ano novo, vida nova.

Ano novo, vida nova.
Último ano escolar, e primeiro [e único pelos próximos 6 anos, esperançosamente] vestibular.
Como disse o meu primo...
"3º ano? Tem que ter uma dose júnior pra inaugurar, então!", enquanto colocava doses de absinto.
Que haja, sim, a curtição no 3º ano.

Ano novo, vida nova.
Novos relacionamentos, quem sabe.

Ano novo, vida nova.
E por que não visual novo?
A vontade de mudar veio assim, do nada. Inspiração. Daí então, muni-me de câmera e fui em direção ao jardim. Fotografei o céu: preto. Só o negrume, sem nuvens. Sem-graça.
Busquei uma outra com o meu rosto contra a luz e contra o jasmim. Sem sucesso, péssima.
Aí que veio, então, a foto.
Os dois pares de sandálias são uns que eu regularmente uso, dispostos em posições nas quais eu regularmente sento. De mim para eu, em foto, e em metonímia.

Ano novo, vida nova.
Que venha 2009, estou pronto. Mas que Janeiro dure mais que os demais meses.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Mente que mente pra gente.

Vá lá, não é a primeira vez que a minha cabeça tenta me iludir. Não digo desilusões amorosas, digo enganar mesmo. Várias foram as vezes onde eu me vi acordando e indo tomar um banho, quando na verdade eu apenas sonhava isso. Artifício para me manter na cama por mais uns instantes? Sempre achei que fosse isso.

Mas agora é novo: processo inverso.

Estava embolando na cama há duas horas já, naquele misto de consciência e ausência dela, entre apitos constantes do meu celular com um lembrete a cada 10 minutos. Eis que eu simplesmente o ignorava, deixava de lado, voltava a dormir.

As condições iam piorando. Quando antes estava com o ar-condicionado ligado, agora meu irmão havia desligado-o, e então me encontrava num forno; janela e portas fechadas. O ventilador, ele nem se importou em ativar. Parecia determinado a me ver acordado.

Não desisti: pedi pra que o ligasse. Ligou. O vento do ventilador era insuficiente, dadas a janela e porta fechadas e, claro, o verão olindense. Mesmo assim, persisti no sono acordado.

Foi aí que aconteceu. Ouvi barulhos. Comecei a distingui-los como sendo... fogos. Muitos! Não eram do ano novo, não eram do Natal. Só podiam ser...

...do listão, oras! Desci correndo. Quem teria passado? Quem teria ficado? Liguei o computador instantaneamente, enquanto gritava "O LISTÃO, O LISTÃO SAIU, SAIU!". Achei ter ouvido o meu irmão dizer "tá doido é?", e por isso duvidei. Perguntei a Dido, a empregada: "ouvisse fogos?". Resposta negativa.

E percebi. Mente que mente pra gente; a minha havia feito aquilo que certamente me faria sair da cama.

Bem, conseguiu.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Bola de cristal mental? 2.

Ainda fiquei por contar os causos dos ônibus. Seguinte: Há um episódio particular e várias ocasiões.

O episódio particular remonta uma situação como as duas anteriores. Lá estava eu almoçando num restaurante próximo ao colégio, na fila do pagamento da conta, esperando só a quitação desta para poder pegar o ônibus e sair em minhas aventuras pelos cursinhos da vida. Eis que, enquanto espero a minha vez, vem aquele mesmo pensamento. Desta vez não como pergunta, mas afirmação:

"O passe-fácil vai acabar."

Repentino, inesperado. Na verdade, foi como ter sido possuído momentaneamente por uma entidade sabe-se lá qual, elevada ao ponto de extrair certezas tão certas.

Nesse caso, no entanto, não houve escolha. Não houve aviso. Foi só confirmação mesmo. Que podia eu fazer com isso? Estava sozinho, sem amigos para pedir dinheiro para a passagem; paguei o almoço com o cartão, e infelizmente tinha a certeza de que o cobrador não aceitaria o Hipercard, nem mesmo se eu fizesse toda a apresentação da propaganda, com direito a "Tcharam!" e tudo.

Dessa vez tomei o ônibus na esperança de estar errado: sem sucesso. A máquina acusou o fim dos créditos, e selou assim a minha passagem de saída do ônibus. Se bem que, mais uma vez, talvez eu tivesse ter dado maior crédito à minha previsão, e não ter esperado um erro da mesma.

-

Os casos segundos dos ônibus são mais implícitos. Não há perguntas ou afirmações que vêm do nada; talvez até seja pura sorte.

Foi assim que eu pensei na primeira vez. Lá ia eu num Piedade/Rio Doce. Para minha infelicidade, todos os assentos encontravam-se ocupados. Ah, mas como valorizo a chance de ir sentado! Tudo bem, é algo que todo mundo espera, mas há preferências: um amigo meu mesmo prefere ir em pé a demorar mais. Eu volto pelo contrário, uma vez que sou grande apreciador das viagens no transporte público, uma vez dados os devidos confortos.
Mas enfim...
O ônibus estava sem assentos livres, sim, mas não havia muitos ali necessitando segurar nas hastes. Sendo assim, havia bastantes lugares para escolher onde pousar os meus dois pés como ponto de apoio. Escolhi um mais ao fundo, perto da porta, do lado esquerdo de todos os que repousavam suas poupanças nas cadeiras naquele típico dia derretedor de Olinda/Recife. Ali fiquei.
Aos poucos, várias outras pessoas iam entrando, mantendo-se assim como eu me mantinha.
Não deu muito tempo, a mulher que estava sentada na cadeira levantou-se para sair. Olhei ao redor: as mesmas pessoas que lá repousavam ali se mantiveram até o momento em que pude desfrutar de tal posição. E lá continuaram então.
Não dei muita bola no momento. "Que sorte em parar justo num lugar onde a pessoa se levantou rápido!", pensei no momento. Afinal, numa rota como a de Piedade/Rio Doce, ir sentado praticamente se torna um pré-requisito.

Mas percebi que essa "sorte" foi aumentando. Em um outro caso, num mesmo Piedade/Rio Doce, só que dessa vez no sentido Piedade - Olinda, acabei por encontrá-lo assim: cheio de gente. Postei-me ao lado de uma outra mulher [o fato de serem ambas mulheres foi coincidência, pelo menos no que eu analisei]. Ao parar no Shopping, poucos foram os que desceram. A mulher foi uma deles. Me colocasse eu em outro ponto, outro oportunista pegava o meu lugar.

Isso se repetia freqüentemente. Uma outra vez, só não sentei porque o meu amigo estava mais próximo do lugar vagado, mas tenho certeza de que só o conseguiu por minha causa.

Seria uma índole? O Universo arrumaria um jeito vagar um lugar para mim?
Seria meu campo energético? As pessoas se sentem repelidas pela energia que eu emano quando estou em pé num ônibus?
Seria meu subconsciente? Ele, ligado com os outros demais subconscientes, conseguisse saber qual daqueles ali no ambiente logo não mais ali estariam, e, diferentemente de subconscientes comuns, mandaria uma mensagem para o cérebro me induzindo a ir ao lugar escolhido?

Ou seria só sorte?

O que fica para ser perguntado também é o intuito de tal previsão. Afinal, pra que raios ela apareceria? Para o mais próvável, ou seja, alertar o ocorrido? Ou será que vai além? Vai ver aparece só para que eu a possa negar achando-a improvável, e então, quando passar a acreditá-la, ou desaparece ou então se torna falsa.

Ah, as dúvidas,
as previsões.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Bola de cristal mental?

Vai ver tenha sido a minha educação televisiva que me fez acreditar nessa idéia, mas acho sinceramente que há capacidades mentais ainda não exploradas. Não baseio o ponto de vista apenas em crença: há episódios que, ao menos para mim, o comprovam.

Primeiramente, o hotel. Lá estava eu, no banheiro, pronto para tomar um banho. Como se sabe, hotéis geralmente têm toalhas próprias para os hóspedes. No entanto, já que minhas estadias não seriam sempre em estabelecimentos que as providenciam, decidi levar uma minha.
Ao entrar no banheiro, jaziam as duas: a do hotel, numa espécie de cabide; e a minha, em minhas costas. Foi quando reparei como ambas eram parecidas: brancas, talvez até um pouco encardidas. O que as diferenciava era a logomarca na do hotel, enquanto a minha não passava do alvo manchado.
É aí que vem o quê de extraordinário: o pensamento.
Não foi algo esperado. Não foi algo voluntário. Repentinamente, como que surgido dos confins infinitos do nada, vem a indagação:
-E se a camareira trocar as duas toalhas?
Aquilo me prendeu por severos segundos. Buscava respostas num intervalo de tempo que aparentava durar mais do que deveria, para uma pergunta que nem precisava de tanto. Devo ter demorado por causa da incredulidade acerca do fato de desconhecer a procedência da indagação. Passado o instante, respondi a mim mesmo: "ora essa! com essa estampa, duvido ela não perceber".
Dito e feito. Ou melhor, pensado e feito. Ao voltar de um longo e frio, ainda que quente para os habitantes locais, dia londrino, constatei que minha toalha, aquela que puxava para um tom levissimamente amarelado, havia desaparecido.
Ah, como não me senti! Primeiramente, inconformado, diria até descrente do ocorrido. Rodei o quarto, e virei cada cantinho atrás dela, sem sucesso. Acabei aceitando: havia feito uma previsão certa. Mas como isso havia acontecido? Por que raios eu tinha previsto isso? Ocorreria de novo? De onde veio essa intuição?
Deixei todos os questionamentos de lado. Fiquei apenas achando o acontecimento engraçado. Fui à recepção do hotel pedir minha toalha de volta. Como seria por demais complicado obtê-la da lavanderia, aceitei ficar com uma das do hotel. Seria um bom souvenir, certamente.

Analisemos agora o segundo ocorrido: O cabeleireiro. Esse até deveras cômico. Pois bem...
Lá vou eu, cortar o cabelo. Até aí, tudo bem. Dois são os donos do local: pai e filho. um mais velho, já nos seus 50. O outro num meio-termo entre 30 e 40. A verdade é que, não por por achar o mais velho incapaz, mas prefiro quando o filho corta. O que acontece era que este estava já com um corte em caminho, e o tempo era escasso; curso de inglês em meia hora. Pois bem, vamos com Roberto.
(Robson e Roberto, os nomes, em ordem crescente de idade. Parece até dupla sertaneja, não?).
Ok. Sentei na cadeira, ele passou o avental (qual seria o nome daquela peça de roupa? enfim) por mim, água com o borrifador e vamos ao corte. Tudo muito bem.
E então, ocorreu novamente: o pensamento. Repentino, vindo de sabe-se lá onde, sabe-se lá o intuito do mesmo:
"Já pensou se ele corta a minha orelha?"
Quais eram as chances? E qual a quantidade de preconceito que havia no comentário? Até onde eu sei, era puramente inocente, mas quem sabe se não havia desconsideração por causa da idade contida inconscientemente?
A resposta foi direta e, mais uma vez, repressiva:
"Que é isso! O cara é um profissional, deve cortar cabelo a mais tempo do que eu tenho de vida, e..."
A resposta foi interrompida. Pelo quê? Ora, por aquilo que, para quem está acompanhando o texto, está esperando; mas para qualquer um que vivesse a situação seria completamente improvável.

Mas pois é. Ele, sim, cortou a minha orelha.
"FILHO DA PUTA!", pensei imediatamente. Na verdade, o ato do corte desencadeou uma corrente de pensamentos incessante. Antes de mais nada, não foi profundo; só a pontinha. "Mas o que ocorreu em seguida?", deve ser uma pergunta a ser feita. O que se esperava, o que eu esperei, na hora do ocorrido, era alguma fala. "Eita, desculpa!" seria algo bom de se dizer, seguido por um "Ainda bem que não foi profundo.", quem sabe. Esse último seria um tanto quanto desegradável de se ouvir, eu provavelmente diria "Que nada, relaxe", mas estaria na verdade pensando em algum palavrão.
Eis que, a tal corrente de pensamentos incessante, foi toda relacionada ao fato de ele não ter demonstrado nenhuma preocupação com o ocorrido. "Talvez não esteja sangrando", pensei, "e por isso ele não falou nada". Decidi verificar, e passei o dedo. Pegajoso. Vermelho. "VIADO DO CARALHO", devo ter pensado algo do tipo. Daí então a cabeça fervilhou com comentários do tipo "ELE NÃO VAI FAZER NADA?!" e outras coisas bastante ofensivas. Na verdade, quando ele viu que eu havia passado o dedo, ele passou algo que não me recordo agora, deve ter sido talco com aquela escovinha de cabeleireiro, tentando esconder o crime. Não sei o que foi pior, ele tentando disfarçar a mutilação ou o fato de eu ter sequer reagido: recusado a pagar, quem sabe, era uma boa pedida. A verdade é que, infelizmente, sou muito passivo a várias coisas às quais eu deveria reagir.
O que se sabe é que o corte rendeu boas piadas. É, realmente, uma boa história para se contar. Da outra vez em que fui cortar o cabelo (não com ele, mas com o filho, felizmente), pessoas verificaram o estado da minha orelha, ou então perguntaram "e aí, tá inteira dessa vez?".
Eu acho que estava muito ocupado xingando o velho gagá com parkinson filhadaputa na hora do ocorrido, mas depois eu comecei a refletir acerca do fato de que, mais uma vez, algo que eu havia apenas considerado se poderia acontecer havia acontecido de fato. A verdade é que eu guardei a experiência exatamente para poder então relatar sobre o caso da previsão. A capacidade estava se tornando cada vez mais real. E perceptível.

Falta ainda o caso do ônibus. Mas que fique para depois; são uma e cinco da manhã, e preciso ir ao médico bem cedo (uma e seis agora) na alvorada (tudo para não repetir 'manhã') seguinte. E realmente espero terminar isso aqui antes de passar a ser uma e sete.

(Consegui.)
(No momento da digitação do 'i' de 'consegui', constato o contrário.)
(Agora sim.)
(Sem constatações divergentes.)

domingo, 26 de outubro de 2008

Me descrevo para mim mesmo. Por mim, tudo bem; possuo o hábito de falar sozinho. Essa coisa que chamam de reflexão. Pois eu reflito é com meu outro eu: pois é, possuo várias personalidades adaptáveis. Chamo-o de minha consciência, por assim chamar, duvido que a seja. Se alguém visse isso, perguntaria "por que não confiar a outro alguém?". E eu responderia: "Ora, e quem mais confiável do que eu mesmo?" É só tentar não mentir para si.

Sonho.

Sonhos sempre foram de grande interesse para mim. Gosto de guardá-los como lembrança quando são cômicos; gosto de sonhá-los quando expressam grandes desejos e ânsias improváveis de ocorrerem; e, apesar do que dizem os professores de Biologia, gosto de ver o sentido neles.

Ultimamente são os dois últimos tipos que mais me têm ocorrido. Os sonhos-desejo são uma experiência tão eufórica que os considero melhores do que a realidade; afinal de contas, as chances de se tornarem reais são poucas. Casos como esses me levam a crer que a imaginação talvez seja mais verdadeira do que a "realidade".

Mas o foco aqui são os que possuem, ao fundo, algum significado de fato. Não delírios ou realizações impossíveis, nem os surreais. No útimo cochilo que tive em minha poltrona, sabe-se lá onde ou com quem estava, mas eis que surgem em minha mente algumas frases.

Assim, como que toda a vastidão embutida do meu universo mental fosse uma imensa lousa branca, onde nela estavam escrito citações. Sim, citações, pois lembro-me muito bem de que possuiam aspas.

Pois é. Lembro-me da lousa, de 4 frases exatamente, lembro até de possuírem aspas;

mas sequer tenho idéia de qual seria o conteúdo.

Na verdade, tenho uma leve impressão do que seriam, apenas. Eram como frases de efeito; daquelas que você sente que causariam um impacto grande, sabe? E, ainda mais, que dariam orgulho àquele que as escreveu.

Ah, como me esforcei para obtê-las! Não uma vez formadas; durante sonho, quando surgiram no tal quadro, foi como que repentinamente, da mais completa inexistência. Refiro-me a elas já feitas: recordo-me de lê-las e orgulhar-me, e então pensar para mim mesmo: "preciso copiá-las! duvido que vou me lembrar quando acordar!"

Estranho o fato de quê, mesmo dormindo, tinha consciência de que me encontrava num sonho. Ainda mais: sabia que dele não me recordaria, e que por isso tinha que dar um jeito de anotar as tais sentenças. Até tentei. Achei que o tinha feito, para ser mais exato. Mas estava errado.

A mente que mente. Assim pode ser definida a minha. Geralmente, sua mentira se resume a me colocar como já acordado, quando na verdade ainda ronco na cama. Truque para manter-me no descanso, reconheço a proeza da mesma. Só que dessa vez ela foi além: Fê-me pensar que acordara, como sempre faz, e ainda achar que havia escrito o que deveria.

E então surgem indagações: "ora, como ela foi além, se repetiu o que fazia durante o descanso, ou seja, manteve-te a dormir?". A resposta jaz no motivo: Outrora ela me fazia achar que estava acordado para me manter dormindo, só que no cochilo da poltrona...

Sabe-se lá o motivo. É aí surgem várias perguntas, assaz intrigantes: por que ela quereria me manter em sono? Seria o conteúdo das frases algo que eu não poderia levar do sonho? Por que sonhá-las, então, se só poderia vivê-las em imaginário?

Vai ver a realidade não fosse o lugar delas. Quem sabe devessem ficar aí guardadas, no meu mundo.

Só posso tirar uma conclusão: nesses tempos últimos, meus sonhos tornam-se muito mais fascinantes do que qualquer elemento de minha realidade, a ponto de eu preferir dormir a ficar acordado. Não por fuga, mas por escolha.

domingo, 14 de setembro de 2008

Crise.

Falam dos tempos de crise. Dizem que são ruins, péssimos. A vida seria melhor se não os houvesse.

Mas imagina agora a sua vida sem eles. Seria feliz? Não é possível. Não há luz sem o escuro. Não há felicidade sem a tristeza. Por um ser a ausência do outro, é preciso existir ambos.

Às vezes não se sabe saber enxergar adiante, ver o que é que realmente fica de bom durante isso. Mas sempre há uma conseqüência positiva.

Talvez você perca algo. e a tal coisa boa que ficou não seja o bastante.
Mas querer tudo já é demais.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Um leva ao outro.

Tenho uns impulsos estranhíssimos de vez em quando. Por exemplo: toda vez que visito um perfil qualquer de alguém no Orkut, espero logo que ele ou ela tenha acabado o relacionamento no qual estava inserido. Não é que eu tenha interesse na pessoa, apesar de que eu já agourei o relacionamento de uma certa garota (e deu certo, diga-se de passagem), é só, como já disse antes, um impulso. Momentaneamente me pergunto, e no instante seguinte já estou me reprimindo. Imagine só se alguém de quem gosto acaba? Acho que ficaria mal.

Vai ver é algo inconsciente. Vai ver quero todo mundo solteiro, como me encontro. Vai ver sou invejoso.


Que cruel eu sou. E olhe que eu nem tenho vocação pra ser vilão;
mal sei dar risada diabólica.