sexta-feira, 2 de julho de 2010

Infinitos e atemporais

Cem anos de solidão terminaram em quatro meses. Nessa relação de tempos medidos, talvez seja mais entendível considerar que são tão distintos tão distintos forem cada mundo. As histórias das vidas solitárias, tão triviais e cotidianas, já vieram datadas e datilografadas, e até dividida em partes. Seja nesse nosso mundo de homens ou em quaisquer um dos outros, a estirpe já estava fadada ao nada de só si mesmos, fado esse ditado por dois grandes sábios, ou ainda um só, que permanecem grandiosos ainda que distantes.

E ao terminar a história dessa casa, formada por tantas outras que só se veem juntas no ser só, a tempestade que nos vem destrói mais uma vez, mas abre em seu lugar um mundo que talvez não seja de homens, nem de coisas vivas. Um mundo que quem sabe, nem seja. Ou que ninguém sabe, mas todo mundo esteja.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Lento retorno

O tempo me passa? Vai ver passa apenas a si próprio, ou a todos nós. Tempo nem deve ser coisa pra se passar.

As palavras me faltam. Não exatamente; elas vêm, soltas, destrinchadas, pedaços de letras, até. Mas só à cabeça. Cérebro, córtex frontal, seja onde for que elas se encontrem. O dia já vem, e me arrependo de eu não ir. À cama.

Me arrependo de muitas coisas. Por mais que se diga mundo afora para não se arrepender. Isso é só mensagem codificada para aquele que a proferiu, na esperança de que, quem sabe, os arrependimentos do falante não pesem mais. Me arrependo de não ter comprado um bonito quadro. Me arrependo também de não mais escrever. De não mais ler como gostaria. E assim, minhas diretrizes, tão fielmente defendidas, me faltam. Sou um hipócrita. Falo de meus ideais, mas não os cumpro.

Sou eu vítima (ou causador?) de pesaroso sentimento, do qual me sinto até envergonhado de dizer qual é. E assim, o que mais gosto, o que mais amo (amo?), o que mais admiro (agora sim!) se vai para longe.

Mas talvez haja esperança. E o que me falte seja o combustível, seja inserir-me no meio. E assim eu volte a praticar o que tanto gosto. Admiro. Talvez assim eu volte a ser quem sou. Ou venha a me tornar quem quero ser. Quem sabe meu universo interno se expanda. Quem sabe siga Einstein e multiplique-se. Infinite-se.

Quem sabe assim eu venha a ser.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volta em banco

Meu encontro com o grafite vem se rarefazendo ultimamente. Me restrinjo agora a corridas-de-escrita dentro do molde dissertativo-argumentativo (molde esse que é mais uma receita de bolo - competitiva, visto que se dá melhor quem a prepara em menos tempo - do que livre exercício de opinião) e garatujas envolvendo algarismos indo-arábicos em suas relações operacionais.

O que me traz aqui, então? O ócio. Impedido de exercer as atividades já descritas, que agora se encontram como minhas prioritárias, e me sentindo demasiado impedido de usufruir de um de meus desejos maiores (ler, seria ele), volto a exercer minha função (por mim mesmo incubida a mim) de por mente (parte dela, claro; infinito universo!) em pó-de-carbono.

Jazo há cerca de duas horas em local mesmo e posição. Acredito que tal permanência deve-se prioritariamente a dois fatos: o hábito já recorrente de pagamento de salários no início do mês e a ineficiência dos bancos públicos para lidar com demanda tão alta. Poderia citar como causa também o atendimento prioritário aos ingressos à melhoridade, mas temo arrepender-me daqui a quarenta anos.

Lembro-me de como era minha vida antes daqui. Aproveitava-a com entes queridos, além, é claro, de arcar com os compromissos estudantis. Mas não mais agora. Poderia dizer que minha vida mudou após essas duas horas e onze minutos de espera. A análise dessas cem pessoas que por aqui circularam certamente trouxeram uma experiência nova para mim. Tão envoltas em seus cotidianos, despender tamanha parte de precioso tepo vital já faz parte deles. Unidades de tempo vão sendo gastas não só com a espera no banco, mas também com o pagamento de contas, o trânsito nas rotas trabalho-casa e casa-trabalho, e com a fila do pão.

E é nessa vida que eu me adentro. Sem perceber, caminho não só para a especificação dos estudos, mas também rumo a todas as rotinas típicas de quem já soma uma quantidade considerável de primaveras. O que fica, além do suspiro desiludido e meio que conformado, é o questionamento:

Serei como eles, que de tão absortos nos mundos próprios isolam-se e despercebem o redor?

Não sei. E não posso aprofundar mais. Minha senha foi chamada.