segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aos que ficam


Me vou como vim, seguindo buscando.
Aos que ficam lhes deixo um mundo
que não foi meu nem será seu.
Cuidem dele pois ele não lhes cuidará.
Atentem-se uns aos outros sabendo
que seguem todos ensimesmados. 
Abram seus corações
Exponham seus espíritos
enquanto encontram portas fechadas
enquanto abandonam a fé.
Aos que ficam lhes peço
Que façam da busca
seu fim primeiro e último.
Não se deixem cair em inação.
E mexam-se
não pelo destino adiante, inconcreto
tampouco pelo ponto de partida, inconsciente
mas tão apenas pelo movimento em si.
Aos que ficam lhes peço
que criem a trama
e deixem estar o desenlace.

recolher o eu
que se espalhou
entre tantos fundos
tantos mundos
escorreu pelos ralos
subiu aos céus.
recolhe o que já foi
o que fora
o que tá fora
junta os cacos
as tripas
os frangalhos
e di-lhe:
"eis aí,
aprende a ser eu de novo."
e só então
uma vez unido
laçado
colado
juntado
poder saber quem é
e espalhar-se de novo

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O gatilho do amor

Qual a medida do amor? Acho que há um consenso de que não existe tal mesura. Mas gostaria de aqui introduzir um novo conceito: o gatilho do amor. Não me demorarei muito em defini-lo, nem dele farei um tratado. Quem sabe depois. Fiquemos por enquanto na essência. O gatilho do amor é exatamente aquele momento que firma a conexão sua e do outro. Se não se mede o amor, podemos dizer que o gatilho é aquela dose que enche a gente. Ou que nos transborda, ainda não sei dizer bem. O que importa é que o gatilho nada mais é do que aquele momento em que o mundo finalmente inexiste a não ser ele e você.


Dá-se inesperadamente, é claro. Para mim, bastou (e veja aqui que o que basta é apenas para o momento; tão incomensurável é o amor que jamais poderia expor aqui tudo o que compôs a construção do sentimento. Foquemos no gatilho, e no gatilho apenas) a minha mão entrelaçada à dele, meu braço ao seu redor, e minha cabeça deitada em seu ombro. Nenhuma ação que não já tivéssemos feito anteriormente. Me pergunto: o que teria feito daquele instante tão único, então? Vai ver foi a medida, no acúmulo desses tantos outros instantes. Portanto, o gatilho é essencialmente o momento, e não propriamente a ação. Daí veio aquele calor agradável, indo então por cada centímetro. E à minha boca vieram as três palavras, tão perdidas e banalizadas. À minha boca vieram, e por lá ficaram. Talvez tenha pesado o uso indevido delas. Ou quem sabe só precaução. Mas aqui dentro, eu sei o que me preencheu. E se já estou assim cheio, em breve vai transbordar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Indo-se

Beijou leve e demoradamente a face macia da avó. Um beijo repleto de amor. Sabia que, a partir dali, de nada mais valeriam seus esforços. Ao menos assim a avó pensava. A neta, pelo contrário, tinha ainda a crença cega na recuperação. E por isso se esforçava como heroína, talvez na esperança de transferir um pouco dessa força à parenta.

Mas não havia o que mais ser feito. A força admirável da garota, por mais que tentasse, não se transmitia para a avó. Foi quando percebeu isso que decidiu deixar um pouco o recinto. Tomar um pouco de ar lhe faria bem.

Quando adentrou novamente o quarto não pôde evitar um leve espanto, acompanhado de um passo hesitante para trás. A avó não estava sozinha no ambiente; junto dela, em pé aos pés da cama, havia alguém que a garota só poderia classificar como um anjo. Assim pensou de alguém com tão grandes asas, capazes até de soterrar o quarto com penas. Suas roupas, contudo, não condiziam com sua condição divina. Mais pareciam trapos, como que pegos emprestados de gente de rua. E as asas não eram brancas como se podiam imaginar; estavam encardidas, levemente irregulares, mal aparadas. A menina questionava a condição angelical da criatura. Não seriam os anjos imaculados? A palavra que em seguida pronunciou veio quase vomitada. Não tinha a intenção de fazer-se notar. Mas se fez.

-Avó?

Os olhos da senhora, outrora tenros para com a criatura posta ao seu lado, agora se abriram brusca e imensamente. Poucos são os que sabem, mas uma abertura de olhos assim é capaz de entregar tudo aquilo que a alma esconde. A neta provavelmente não sabia disso, mas por acaso estava a observar tão atentamente os olhos da parenta que descobriu tudo o que a avó talvez nem fosse lhe dizer. Com a ajuda de seu companheiro, a avó começou a pôr-se de pé. Seguravam- se as mãos como se um já fosse o outro. Pouco a pouco se revelava essa habilidade da menina de notar esses imensos detalhes. Os olhos enrugados não mais estavam escancarados, mas já tinham revelado o que podiam. Disse a senhora as poucas palavras que pôde achar no momento:

-Calma, minha filha.
-Você vai com ele?
-Eu vou, mas eu volto.

E assim partiram. Como se deu a neta não sabe. As asas dele se abriram, e como previsto, inundaram o quarto. De tão grandes não podia a garota ver o que ocorria. Ou talvez fosse o seu susto, que a fez recuar e cobrir os olhos. Quando os abriu novamente, tudo o que havia no ambiente era a cama da avó, e várias penas que ondeavam levemente rumo ao chão. Não só isso. Notou também uma luz diferente no quarto, tons de cores que não lembrava ter visto antes em sua vida. As lágrimas tentavam fazer o percurso rumo aos olhos, mas encontravam a dúvida e a admiração no caminho. Não sabia exatamente o que fazer.

A avó foi; se voltou, não se sabe. Pelo menos a menina nunca acreditou nisso. Achava que era só uma distração para despistá-la. Além do mais, não foi o que os olhos da velha disseram. Contudo, a ida da avó deixou de ser uma preocupação para a neta. Do ali em diante não tinha controle, mas sabia que a avó se fora com a esperança de felicidade. Aquele último momento, de tão forte, certamente tinha se gravado na mente da senhora, e não a deixaria jamais.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

me invadem mundos terceiros,
sem perguntar se os desejo.
e para que tanta educação?
a tudo isso digo não:
entrai-vos!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um novo par de olhos

Por um tempo de agora me pus a usar óculos. Admito que no fundo sempre tive curiosidade; não sabia o que me esperava. Primeiramente porque todo e qualquer tipo de partícula parece ser atraída por aquelas duas lentes de 15cm². Mas que posso fazer, é só assim que os minúsculos pontos de luz se ordenam.

O problema é que algo me incomoda ao pôr esse par de gafas. Não sei bem o quê. Nesse mundo de homens tão dependente da visão, pô-los me faz ver tudo diferente. Nítido, mas cinza. E nesse mundo de homens tão dependente da visão, toda a construção que fiz do ao meu redor com o passar do tempo vem-me agora distinta, confusa ao meu antigo ver. Claro que nem sempre fui míope, mas um ou dois dos mais importantes de meus escassos anos foram vividos com a luz se indo a todos os lados.

Eis que, portanto, alterno-me entre os dois mundos. Um onde os conceitos são imponentes, definidos, palpáveis. E o outro, que é minha pátria. Daqui me vim, e aqui me formei e a tudo. Aqui, onde a luz decide ir a outros lugares que não meus olhos, e os pontos trocam de lugar uns com os outros na ordem certa das coisas. Eu sou aqui, e aqui tudo se é difuso. Mas se você chega bem perto, as coisas voltam ao lugar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O que me vinha ao vir aqui?

A preguiça é o andamento de tudo o que é vivo. Começa fraco, às vezes nem existe, mas uma hora chega. Com o tempo se cria aquele lodo, e toda a maquinaria pronta para a mais simples atividade vai se travando. A conformidade com o que há vai se tornando maior do que a revolta com o que pode ser e não é. E quando se menos espera, vai dando preguiça de viver e a vida fica com preguiça de ser vivida.

Mas não chego nesse ponto ainda. No momento, foram as minhas lembranças que deram pra preguiçar. Vai ver perceberam como para mim são valiosas, e decidiram aproveitar a valia pra tardar um pouco a vir. Fico aqui com um raciocínio fixo, mas o bombardeio de ideias múltiplas acaba tirando-o do foco. Por agora mesmo já me esqueço do real propósito de iniciar esse texto. Quem sabe me lembro no andamento.

Táticas não faltaram para me habituar às fugas memoriais. Treino a massa cinzenta para me livrar do vazio que esquecer deixa, mas mesmo essas memórias seletas preguiçam do seu propósito de lembrar para não esquecer e abandonam sua função, me abandonando por tabela.

O propósito de estar aqui não me veio à mente. Devo deixar esse texto assim, despropositado. Quem sabe o torne mais humano, e assim ele se junta a nós nessa busca do porquê de ser.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Infinitos e atemporais

Cem anos de solidão terminaram em quatro meses. Nessa relação de tempos medidos, talvez seja mais entendível considerar que são tão distintos tão distintos forem cada mundo. As histórias das vidas solitárias, tão triviais e cotidianas, já vieram datadas e datilografadas, e até dividida em partes. Seja nesse nosso mundo de homens ou em quaisquer um dos outros, a estirpe já estava fadada ao nada de só si mesmos, fado esse ditado por dois grandes sábios, ou ainda um só, que permanecem grandiosos ainda que distantes.

E ao terminar a história dessa casa, formada por tantas outras que só se veem juntas no ser só, a tempestade que nos vem destrói mais uma vez, mas abre em seu lugar um mundo que talvez não seja de homens, nem de coisas vivas. Um mundo que quem sabe, nem seja. Ou que ninguém sabe, mas todo mundo esteja.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Lento retorno

O tempo me passa? Vai ver passa apenas a si próprio, ou a todos nós. Tempo nem deve ser coisa pra se passar.

As palavras me faltam. Não exatamente; elas vêm, soltas, destrinchadas, pedaços de letras, até. Mas só à cabeça. Cérebro, córtex frontal, seja onde for que elas se encontrem. O dia já vem, e me arrependo de eu não ir. À cama.

Me arrependo de muitas coisas. Por mais que se diga mundo afora para não se arrepender. Isso é só mensagem codificada para aquele que a proferiu, na esperança de que, quem sabe, os arrependimentos do falante não pesem mais. Me arrependo de não ter comprado um bonito quadro. Me arrependo também de não mais escrever. De não mais ler como gostaria. E assim, minhas diretrizes, tão fielmente defendidas, me faltam. Sou um hipócrita. Falo de meus ideais, mas não os cumpro.

Sou eu vítima (ou causador?) de pesaroso sentimento, do qual me sinto até envergonhado de dizer qual é. E assim, o que mais gosto, o que mais amo (amo?), o que mais admiro (agora sim!) se vai para longe.

Mas talvez haja esperança. E o que me falte seja o combustível, seja inserir-me no meio. E assim eu volte a praticar o que tanto gosto. Admiro. Talvez assim eu volte a ser quem sou. Ou venha a me tornar quem quero ser. Quem sabe meu universo interno se expanda. Quem sabe siga Einstein e multiplique-se. Infinite-se.

Quem sabe assim eu venha a ser.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volta em banco

Meu encontro com o grafite vem se rarefazendo ultimamente. Me restrinjo agora a corridas-de-escrita dentro do molde dissertativo-argumentativo (molde esse que é mais uma receita de bolo - competitiva, visto que se dá melhor quem a prepara em menos tempo - do que livre exercício de opinião) e garatujas envolvendo algarismos indo-arábicos em suas relações operacionais.

O que me traz aqui, então? O ócio. Impedido de exercer as atividades já descritas, que agora se encontram como minhas prioritárias, e me sentindo demasiado impedido de usufruir de um de meus desejos maiores (ler, seria ele), volto a exercer minha função (por mim mesmo incubida a mim) de por mente (parte dela, claro; infinito universo!) em pó-de-carbono.

Jazo há cerca de duas horas em local mesmo e posição. Acredito que tal permanência deve-se prioritariamente a dois fatos: o hábito já recorrente de pagamento de salários no início do mês e a ineficiência dos bancos públicos para lidar com demanda tão alta. Poderia citar como causa também o atendimento prioritário aos ingressos à melhoridade, mas temo arrepender-me daqui a quarenta anos.

Lembro-me de como era minha vida antes daqui. Aproveitava-a com entes queridos, além, é claro, de arcar com os compromissos estudantis. Mas não mais agora. Poderia dizer que minha vida mudou após essas duas horas e onze minutos de espera. A análise dessas cem pessoas que por aqui circularam certamente trouxeram uma experiência nova para mim. Tão envoltas em seus cotidianos, despender tamanha parte de precioso tepo vital já faz parte deles. Unidades de tempo vão sendo gastas não só com a espera no banco, mas também com o pagamento de contas, o trânsito nas rotas trabalho-casa e casa-trabalho, e com a fila do pão.

E é nessa vida que eu me adentro. Sem perceber, caminho não só para a especificação dos estudos, mas também rumo a todas as rotinas típicas de quem já soma uma quantidade considerável de primaveras. O que fica, além do suspiro desiludido e meio que conformado, é o questionamento:

Serei como eles, que de tão absortos nos mundos próprios isolam-se e despercebem o redor?

Não sei. E não posso aprofundar mais. Minha senha foi chamada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Closer to the sky


Favor ouvir enquanto lê.

-

Tinha como hábito os banhos regados a música. Geralmente dançava, ou apreciava estaticamente, encaixava-se com o ritmo. Mas naquele banho estava envolto nas situações cotidianas. Dinheiro, horário, entre outros. Cabelo, partes do corpo; xampu sabonete: tudo era feito maquinalmente, entre comentários mentais em relação à temperatura da água e o sol no ambiente.

E foi maquinalmente que o viu. Ali, voando, se aproximando, jazia o mosquito. Localizou-o, focalizou-o, tentou envolvê-lo com a palma. Pegá-lo enquanto no ar, ao invés de esperá-lo parar em alguma superfície. Era também um de seus hábitos. Fazia-o rapidamente, mas não tão rapidamente quanto deveria ser.

Escapou. Viu-o subindo, indo em direção ao teto. Um tanto alto para a baixa estatura do garoto. Não teve dúvidas: pulou. E foi nesse momento, que, somado ao entrave entre homem e inseto, veio o som. A música! Nelly Furtado, com o seu sotaque canadense, proferia as seguintes palavras: "Mais perto do céu". Sim, em bom português. E de Portugal.

E foi assim que estava. E foi assim que se viu. Enquanto no ar, sua mente foi rápida o bastante para, ao mesmo tempo, tentar agarrar o pequeno animal e refletir sobre o som que vibrava seus tímpanos e os seguintes ossículos. Estava, realmente, mais perto do céu. Assim se via. E a poética do verso, do momento, dominava-o! Não conseguiu obter o inseto na primeira vez. Pulou novamente, mas pulou mais alto. E assim seguiu. Mal seus pés tocavam o chão, e já de lá saíam com impulso e força renovados. De que importavam as poucas horas de sono? Nelly dizia "Como uma força/ como uma força/ como uma força que ninguém pode parar".

E assim continuou. Naquela aventura particular e minúscula, sem quaisquer grandes consequências para a humanidade, o garoto se mantinha. E Nelly o ajudava. Dava-lhe força!
Pulava alto, mais alto do que jamais o fizera. Alcançou o céu. O teto, no caso. A cada tentativa, localizava novamente o mosquito em voo desorientado. Até que não o achou mais.

Parou de pular. Agora parado, estático em seu lugar, olhou para o punho fechado. Abriu-o. E lá jazia o pequeno voador, inerte. Triste, sim, mas pior seria uma transmissão de dengue. Além do mais, mosquito tem vida curta.

E foi assim que o garoto se sentiu forte. Ainda que uma força utilizada sem fins significativos, foi uma força que ninguém pôde parar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Talvez não tão estranho assim.

Talvez eu possa dizer o que primeiramente me chamou a atenção. Na época, quando despertei meu interesse, foi por causa da originalidade da história, em meu julgamento. Na época, também, não refleti muito sobre tal constatação. Talvez uns dois anos separem o momento em que tomei conhecimento do filme e eu assistindo-o de fato. Pouco sabia eu que seria o tempo necessário para inteiramente sentir a película.

E qual a importância desse período? Meu maior envolvimento com a escrita, acredito eu. Acho que é por isso que Mais estranho que a ficcção para muitos não vai muito longe. Mas uma vez nessa angústia que é escrever, uma vez que você percebe o quão visionário foi o criador do filme ao elaborar uma história sobre alguém que não é só personagem de um livro, mas também da vida, percebe-se, inclusive, o valor da obra. Não duvido que essa ideia já seja antiga (visto que boa parte dos casos de metalinguagem já fazem parte de grandes livros, se não todos) e eu não a conheça, bebê (a)literato que sou.

E pode-se incluir a questão pessoal. Que autor não gostaria de ter a chance de interagir diretamente com o seu personagem? Mais que isso, ver que ele tem autonomia?

Talvez sem um grande orçamento. Talvez sem uma excelente trilha sonora. Talvez sem inesquecíveis atuações. Talvez um dos poucos filmes sérios de Will Farrell. Talvez nem mesmo o enredo seja lá grande coisa. Talvez apenas mais um filme lançado no mundo. Outro detalhe jogado. Mas é como foi dito:

"[...] we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties which we assume only accessorise our days are, in fact, here for a much larger and nobler cause:

They are here to save our lives."

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Rapaz,

mil perdões, sei que isso está entregue às aranhas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Why doesn't it always rain on me?

Eu falei com a chuva. Veio a mim sem eu sequer chamá-la, mas como foi bem-vinda! Quem sabe ela tornasse minhas lágrimas camufladas. Como a quis! Pedi-a com mais força. Pingos grossos! Daqueles que se fazem perfeitamente audíveis ao tocar o chão.

Eu falei com a chuva, e ela não me atendeu. Fez-se garoa. Mas era de força que eu precisava. Um toró traria à tona todo aquele sofrimento guardado pelas convenções sociais, que só de cutucar já dói o corpo todo.

Mas ela queria me ver sofrer. Não a culpo; nada que eu não merecesse. E a ela isso disse. Que fosse feita sua vontade. Falei-lhe que entendia seu desejo: que minha dor extravazasse aos poucos, evaporando sem pressa. Nada mais justo. Contei-lhe que a dor da qual eu havia sido agente dela agora sofria. E causada por mim! Nada que ela não soubesse.

Eu falei com a chuva, e ela me ouviu. Vai ver que por pena tratou de ganhar vigor. Que maravilhoso! Senti meu cabelo umedecer, mas não tão rápido quanto desejava. Comentei com ela que bem que podia ser mais. E ela diminuiu. Fui eu ganancioso? Abusivo? Tudo bem, pedi que mantivesse o ritmo de antes. Ela manteve: cessou água. É preciso ser tão exato assim com a natureza?

Eu falei com a chuva, e ela me ouviu. Ouviu, mas não atendeu. Circulei um pouco pela rua, ainda esperançoso. Até que percebi seu jogo. Entendi que, assim que entrasse em casa, ela desabaria. Acreditava que era apenas para me dar o gostinho, e assim aumentar o que eu tava cá dentro. E assim foi.

Até demorou um pouco. Achei estar errado. Mas ela veio: desabou com o que podia. Mas só por provocação: logo se recolheu ao seu nada, e eu ao meu.
Meu nada nunca havia pesado tanto.

domingo, 9 de agosto de 2009

Indagação

Todos os dias, a qualquer momento (seja no primeiro abrir de olhos, seja ao ver a morte pela caixa mágica ou pelo papel, ou até mesmo quando se aprecia a mais saborosa das sobremesas), milhões de pessoas, de tão espalhadas que parecem poucas, fazem-se a mesma pergunta: é para ser assim?

Talvez não.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Falha de comunicação

Posto de beira de estrada. Lojinha de conveniência. Algum lugar no Mato Grosso. Com sede, pergunto:
-Quanto é a latinha de ixpraite?

Duas meninas atendem. Uma delas não resiste, esconde o riso e sai da minha vista. A outra indaga:
-O quê?
-A lata de ixpraite. Quanto é?
A expressão dela seria a mesma se eu tivesse pedido asvujabsrtls. Começo a pensar se não deveria dizer "Quanto éah a latchinha dji ispraitxe?", mas fico com a repetição e passo a gesticular.

-A lata, a lata - simbolizo algo parecido com uma utilizando as mãos - quanto é?

A "sumida" ri mais. Está atrás da parede. Não a vejo, mas sei onde está. Minha vontade é de dizer que isso não se faz, que há vários modos de falar pelo Brasil, que o dela não é o certo, que não há certo, que o meu não é engraçado por ser diferente... mas prefiro desistir.

-Dois reais - a falante finalmente responde.

Pago, pego, espero o troco, tomo. Ou melhor, bebo. O gosto da matogrossense é o mesmo da pernambucana.

domingo, 5 de julho de 2009

Crise de insônia causada por um neoliberal

Talvez eu nunca tenha exposto aqui um texto político. Muito provavelmente, propositalmente. Sinto-me desconfortável ao expor opiniões de tal cunho. Na verdade, sempre acho que nunca tenho argumentos nem formação suficientes para discutir sobre esse assunto. Só que dessa vez o tópico me intrigou...

Sexta-feira. Eu, como um típico terceiranista da área de humanas, havia acabado de ter uma aula de História. O assunto era totalitarismos, Revolução Russa e a crise de 1929. Não sei se isso influencia, mas certamente é um contraponto ao assunto principal.

Por algum motivo, acabei por parar num tópico de orkut que perguntava sobre a legalidade da xerox de livros. Uma das pessoas que respondeu o tópico chamou-me a atenção, e chequei o seu perfil. Mostrava várias imagens comparando os E.U.A. com o Brasil, e outras que, muitas vezes, exaltavam o capitalismo, até o título de "capitalistic pig". Fiquei na dúvida se o determinado sujeito apoiava o regime ou o execrava.

No entanto, seu perfil trazia um link. Era o que eu precisava para definir sua posição política. O endereço trazido era o artigo "Por que a liberdade assusta tanto?", referente à inexigência do diploma para os profissionais da área de jornalismo. O artigo, não só pelo conteúdo, por alguma razão me foi bastante interessante. Por ele, tomei conhecimento do Instituto Ludwig von Mises Brasil, que busca passar adiante uma doutrina econômica da Escola Austríaca, seja lá o que for. O texto e o site mostram claramente a posição neoliberal (e anarquista, de um certo modo) do instituto.

Não vou mentir: entrei em concordância em alguns pontos. Mas outros, provavelmente os princípios básicos da tal escola, me foram extremamente absurdos. Esse trecho, por exemplo: "
Sempre alguns poucos privilegiados irão ganhar em detrimento dos vários outros desafortunados."

Que eu seja revolucionário, socialista, comunista, marxista, hipócrita!, o que for; simplesmente não consigo aceitar que essa frase seja dita livremente. Ratificar que alguns devem se beneficiar às custas de uma maioria...

Mas não é isso que me chama a atenção. Minto: a indignação ao ler trechos como esse é enorme! Tanto que, às 5h30 (3 horas após minha ida à cama), me vieram à mente as palavras de meu professor de História: "uma economia capitalista sem a regulamentação do Estado vai sofrer crises. Por quê? Porque o povo é ganancioso, sempre vai querer obter o máximo possível.", ou algo assim.

Seja o que tenha sido, a minha indignação para com o artigo e um outro motivo pessoal foram o bastante para me acordar (as 5h30!), pensando todas as infinitas possíveis maneiras nas quais o texto fora infeliz. Apareci de pé seis horas mais cedo do que o normal, atitude que fez meus pais, no mínimo, levantarem as respectivas sobrancelhas. Infelizmente, para mim, o tal artigo (entre outros fatores, inclusive relutância ao sono) me fez permanecer com os olhos abertos por praticamente vinte e quatro horas.

Sei que o artigo e o tal instituto não me deixarão tão cedo. Na verdade, até me preocupo com suas ideias! Não minto: acredito ser uma pessoa altamente influenciável, e temo cair pelos seus ideais. Fica em mim a esperança intensa de que isso não aconteça; apesar de permanecer o desejo de conhecer os ideais da Escola Austríaca (muitas vezes, para contrariá-la).

PS: favor perceber que escrevo esse texto vinte e quatro horas após o ocorrido; mal sei como me aguento em pé.

sábado, 20 de junho de 2009

Oxe, menino, parabéns!

Um ano. Mas afinal, o que é o ano. Não falo do sentido literal, a volta no Sol; pergunto sobre o seu significado na vida cotidiana. Simbolicamente, fica como o reinício do ciclo, ou uma nova etapa no caminho (caso se siga uma visão desprovida de novos começos). Passar um ano vem como aquela lembrança de "Caramba! O tempo passou. Vejamos o que fiz..."

E aí se reflete. Tiro hoje como um dia de fechação para balanço. Em um ano, estabeleci metas mais solidamente, fixei um objetivo. E claro, mais fica por vir! Afinal de contas, o passar de ano surge também para lembrar os que ainda vêm.

Tiro hoje também para agradecer. Não só essenciais como entes queridos, mas os de especial contribuição: Tatá, Flávia, Rita e tantos outros, que mesmo inconscientemente me fizeram adentrar no escrito.

E claro, como todo bom ano que passou, tiro hoje para comemorar.
Festejemos, minhas multifacetas camaradas! Pois hoje é um dia de mim para eu.

domingo, 7 de junho de 2009

Exagerando

-Que fome.
-Pois é...
-Queres ir ali? - aponta para uma loja de pastel.
-Tais afim de comer pastel?
-É, tô também não...
-Também?
-É.
-Quando eu disse que eu não queria?
-Quando eu disse que era tu que também não queria?

-
Não se pode exagerar nas inferências.

terça-feira, 2 de junho de 2009

De dentro do monstro de metal que come gente e depois as evacua.

Andar de ônibus hoje em dia no Recife predispõe a existência de algumas coisas. Além das já habituais paciência, calor e medo (seja de assalto ou de coisas como passar o trajeto em pé ao lado de uma agradável axila, ter seu ombro como travesseiro de um desconhecido, entre outros...), surge ainda a necessidade de um pequeno apetrecho tecnológico, composto de uns muitos chips e alguns gigas de memória (e pensar que há poucos anos 256 megabytes era música que não acabava mais). Este, acoplado a um fio que se bifurca em duas extremidades, passou a ser essencial em qualquer viagem no transporte público. Para quantos mundos não se viaja com esses pequenos dispositivos enfiados na orelha! De fato, o escapismo proporcionado é formidável. Combinado a uma janela na sombra e um dia ventoso, então...

Pois é, aparelhos como mp3 ou celulares modernos com tocadores do formato tornaram-se imprescindíveis. Inclusive para mim. Se ônibus é meu lugar de divagações, com uma musiquinha supimpa nem se fala. Talvez assim entedam minha frustração no momento dado.

Encontrava-me eu num Rio Doce/Piedade com mais dois amigos. Os leitores olindenses frequentadores do Shopping Recife de independência o bastante para irem sozinhos mas de idade baixa para dirigir um carro sabem como é gratificante encontrar um Barra de Jangada dando sopa quando se precisa, uma vez que sua probabilidade de aparecer na necessidade é quase nula. Lotado, sim, mas nada melhor do que descer dentro das imediações do centro de compras. Após alguns poucos minutos de conversa, meus dois amigos começam a tirar de seus respectivos bolsos aparelhos executores de mp3. Que ótima ideia!, pensei comigo mesmo alegremente. A alegria se foi ao constatar que meu fone havia ficado em seu lugar de repouso: minha casa. Quando fui informar tal fato aos amigos, já era tarde: ambos estavam embalados em mundos próprios, tornando o fato de estarem em pé "parados" pelos próximos 50 minutos irrelevante. Estavam distantes, logo tudo que eu poderia fazer era ir cutucá-los ou gritar loucamente por eles, mas não sou do tipo que incomoda os demais passageiros.

Felizmente, como um bom incentivador à ideia escrita, surgiu-me, no momento do isolamento em pleno percurso descrito acima, esses parágrafos que aqui estão sendo lidos. Na verdade só as primeiras 20 palavras; tinha em mão apenas o celular, e digitar um texto desses não era exatamente agradável (nem com T9), me levando a escrever o resto posteriormente.

Mas o que realmente me agradou foi o ato generoso. Após um tempo, com a diminuição do contingente populacional no veículo, pude novamente reunir-me com meus amigos. Um deles, bondoso e atencioso como ele só, ofereceu-me um dos fones. Que felicitação! Melhor do que criar todo um universo com a música, é ter alguém com quem compartilhá-lo.

É por essas e outras que continuo amando os ônibus.