Tinha como hábito os banhos regados a música. Geralmente dançava, ou apreciava estaticamente, encaixava-se com o ritmo. Mas naquele banho estava envolto nas situações cotidianas. Dinheiro, horário, entre outros. Cabelo, partes do corpo; xampu sabonete: tudo era feito maquinalmente, entre comentários mentais em relação à temperatura da água e o sol no ambiente.
E foi maquinalmente que o viu. Ali, voando, se aproximando, jazia o mosquito. Localizou-o, focalizou-o, tentou envolvê-lo com a palma. Pegá-lo enquanto no ar, ao invés de esperá-lo parar em alguma superfície. Era também um de seus hábitos. Fazia-o rapidamente, mas não tão rapidamente quanto deveria ser.
Escapou. Viu-o subindo, indo em direção ao teto. Um tanto alto para a baixa estatura do garoto. Não teve dúvidas: pulou. E foi nesse momento, que, somado ao entrave entre homem e inseto, veio o som. A música! Nelly Furtado, com o seu sotaque canadense, proferia as seguintes palavras: "Mais perto do céu". Sim, em bom português. E de Portugal.
E foi assim que estava. E foi assim que se viu. Enquanto no ar, sua mente foi rápida o bastante para, ao mesmo tempo, tentar agarrar o pequeno animal e refletir sobre o som que vibrava seus tímpanos e os seguintes ossículos. Estava, realmente, mais perto do céu. Assim se via. E a poética do verso, do momento, dominava-o! Não conseguiu obter o inseto na primeira vez. Pulou novamente, mas pulou mais alto. E assim seguiu. Mal seus pés tocavam o chão, e já de lá saíam com impulso e força renovados. De que importavam as poucas horas de sono? Nelly dizia "Como uma força/ como uma força/ como uma força que ninguém pode parar".
E assim continuou. Naquela aventura particular e minúscula, sem quaisquer grandes consequências para a humanidade, o garoto se mantinha. E Nelly o ajudava. Dava-lhe força! Pulava alto, mais alto do que jamais o fizera. Alcançou o céu. O teto, no caso. A cada tentativa, localizava novamente o mosquito em voo desorientado. Até que não o achou mais.
Parou de pular. Agora parado, estático em seu lugar, olhou para o punho fechado. Abriu-o. E lá jazia o pequeno voador, inerte. Triste, sim, mas pior seria uma transmissão de dengue. Além do mais, mosquito tem vida curta.
E foi assim que o garoto se sentiu forte. Ainda que uma força utilizada sem fins significativos, foi uma força que ninguém pôde parar.
Talvez eu possa dizer o que primeiramente me chamou a atenção. Na época, quando despertei meu interesse, foi por causa da originalidade da história, em meu julgamento. Na época, também, não refleti muito sobre tal constatação. Talvez uns dois anos separem o momento em que tomei conhecimento do filme e eu assistindo-o de fato. Pouco sabia eu que seria o tempo necessário para inteiramente sentir a película.
E qual a importância desse período? Meu maior envolvimento com a escrita, acredito eu. Acho que é por isso que Mais estranho que a ficcção para muitos não vai muito longe. Mas uma vez nessa angústia que é escrever, uma vez que você percebe o quão visionário foi o criador do filme ao elaborar uma história sobre alguém que não é só personagem de um livro, mas também da vida, percebe-se, inclusive, o valor da obra. Não duvido que essa ideia já seja antiga (visto que boa parte dos casos de metalinguagem já fazem parte de grandes livros, se não todos) e eu não a conheça, bebê (a)literato que sou.
E pode-se incluir a questão pessoal. Que autor não gostaria de ter a chance de interagir diretamente com o seu personagem? Mais que isso, ver que ele tem autonomia?
Talvez sem um grande orçamento. Talvez sem uma excelente trilha sonora. Talvez sem inesquecíveis atuações. Talvez um dos poucos filmes sérios de Will Farrell. Talvez nem mesmo o enredo seja lá grande coisa. Talvez apenas mais um filme lançado no mundo. Outro detalhe jogado. Mas é como foi dito:
"[...] we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties which we assume only accessorise our days are, in fact, here for a much larger and nobler cause: